Análise de Conjuntura

Análise de Conjuntura - Fevereiro de 2026

Parte 1 - As novas disposições de exercício da hegemonia do Capital.

“O velho mundo morre, o novo retarda a aparecer e, nesse claro-escuro, brotam os monstros” (Antonio Gramsci).

“A sociedade burguesa se encontra diante de um dilema: ou transição para o socialismo, ou regressão à barbárie” (Rosa Luxemburgo)

A história não se move de forma linear, mas por saltos e rupturas. O infame ataque dos EUA à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro não é apenas mais um degrau na escalada de violência explícita utilizada para concretização de seus interesses, mas a representação de um novo estágio de disposições da burguesia deste país na defesa de sua hegemonia.

Devemos entender quais foram os motivos (sobretudo econômicos) que resultaram na guinada nas premissas ideológicas e institucionais que sustentaram o exercício de dominação dos EUA nas últimas décadas para esboçar uma compreensão sobre o que poderá vir a seguir.

A política externa dos EUA buscou, no último período, a expansão do sistema de hegemonia através do livre-comércio e de alianças burguesas subordinadas, garantindo a primazia dos EUA na acumulação e na reprodução do sistema de exploração global, vocalizadas de certa forma pelo Consenso de Washington sobre as reformas liberais a serem impostas aos países, e a consolidação do dólar como moeda de reserva global e unidade monetária obrigatória para o comércio mundial, o que permite aos EUA “imprimir dinheiro” para financiar o seu gasto público, exportando a inflação para o mundo.

Uma expressão deste modelo estava na própria cadeia de desenvolvimento de produtos de tecnologia, em que o design, software e engenharia eram produzidos nos EUA, e boa parte das instalações fabris foram exportadas para países como a China, para exploração de força de trabalho mais barata, em associação com a burguesia local (e em algumas situações com empresas estatais).

Para a manutenção deste sistema comercial foram fortalecidos certos arranjos políticos e institucionais que garantissem a estabilidade e a segurança jurídica necessária para este modelo de exploração. Conflitos diretos com as principais potências foram evitados e, via de regra, adotou-se uma certa discrição na intervenção nas questões de política interna de outros países, sem que os EUA deixassem de se impor através de violência econômica e militar contra países ou governos que de alguma forma se manifestassem de forma mais aberta contra seus interesses.

A violência não é um recurso do qual os EUA abdicaram em qualquer outro momento de sua história. O que se trata aqui é compreender a escala em que este país está disposto a exercer a violência a partir deste momento histórico (suas motivações econômicas, bases ideológicas e implicações políticas) - e como devemos reagir a isto.

Especificamente com relação à América e aos BRICS, assim se manifestaram recentemente algumas vozes influentes da burguesia dos EUA:

Vamos tomar o petróleo [da Venezuela] de volta, que sinceramente deveríamos ter tomado há muito tempo. Muito do dinheiro virá do chão e vamos ser reembolsados por tudo” - Donald Trump, em janeiro de 2026.

“Nós somos os Estados Unidos da América. Não somos os Estados Unidos de ‘uma parte’ da América. Se o mapa diz América do Norte e América do Sul, e nós somos a América, então tudo isso faz parte da nossa esfera de influência por direito de nome. É o nosso quintal e vamos começar a cuidar dele como se fosse nosso jardim” - Marjorie Taylor Greene, ex-deputada republicana, ligada ao “nacionalismo cristão” e ao movimento de teorias conspiratórias QANON).

“Na lei de propriedade intelectual, se você detém a marca principal, você detém o território da marca. Nós somos o ‘Detentor do Título’ América. Faz todo o sentido que as rotas comerciais e os recursos do ‘continente América’ priorizem a ‘nação América’. É uma questão de lógica constitucional hemisférica” - Vivek Ramaswamy, bilionário do setor de biotecnologia, e que lidera as pesquisas para o governo de Ohio com o slogan de “imposto zero” e “soberania absoluta”.

Daremos golpe em quem quisermos! Lidem com isso”. Elon Musk, dono do Twitter, rede na qual parte da esquerda pretende “disputar” o algoritmo.

“A era da globalização romântica acabou. Agora vivemos em um mundo de escassez. Quem detém os recursos e as rotas próximas, detém o futuro. Nossa política para o Sul será baseada em resultados: ou vocês são o motor da nossa indústria, ou são um obstáculo. E nós fomos eleitos para remover obstáculos.” - J.D. Vance (Vice Presidente dos EUA), sobre a nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) divulgada em 2025.

A radicalização da violência dos EUA (enquanto representante e organizador dos interesses de sua burguesia) não pode ser compreendida sem antes analisarmos o desenvolvimento econômico das duas maiores potências globais nas últimas décadas.

Parte 2 - Desenvolvimento Econômico EUA x China nos Últimos 20 anos

Abaixo alguns dados comparativos sobre as economias nas últimas duas décadas, com comentários a seguir.

Gráfico 1 - Exportações Globais: em 2005, os EUA detinham cerca de 9% das exportações globais, enquanto a China tinha 7%. Em 2025, a China dominou cerca de 15% do comércio global (se tornando a principal parceira comercial de 140 nações), enquanto os EUA declinaram para 8% (se mantendo como principal destino comercial de 52 países). Dos 10 portos mais movimentados do mundo, 7 deles estão localizados na China.

Gráfico 2 - Produtividade do Trabalhador: a produtividade média do trabalhador chinês cresceu 340% nos últimos 20 anos (embora os aumentos mais expressivos tenham ocorrido entre 2005-2011, com taxas médias superiores ou próximas de 10%, motivadas especialmente pela migração do trabalhador rural para a cidade), enquanto a produtividade média do trabalhador dos EUA cresceu 30% (e continua cerca de 4 vezes maior do que a produtividade chinesa).

Gráfico 3 - Investimento em P&D: a China gastou, em 2025, US$ 800 bilhões, o que é, considerando a paridade de poder de compra, valor equivalente ao gasto pelos EUA no mesmo ano. Enquanto os EUA ainda lideram em segmentos de tecnologia de fronteira (semicondutores, biotecnologia, tecnologia de guerra), a China tomou a liderança em setores como veículos elétricos, energias renováveis, telecomunicações e processamento de terras raras. A planificação da economia na China faz com que a produção de componentes de um produto complexo (eletrônicos, baterias, semicondutores) sejam produzidos com uma distância de poucos quilômetros, sendo o escoamento de sua produção realizada com uma rede complexa de trens de carga, enquanto nos EUA o processo de desindustrialização das últimas décadas prejudicou a sinergia de sua cadeia produtiva.

Gráfico 4 - IA e Robôs Industriais: com relação à inteligência artificial, enquanto os modelos mais avançados são desenvolvidos nos EUA, é a China quem tem tomado a dianteira para otimizar sua utilização de forma disseminada na produção industrial (“IA aplicada”), sendo o país que mais investe em robótica (a China possui 41% dos robôs industriais do mundo).

Gráfico 5 - PIB Nominal: em 2005, o PIB nominal da China era cerca de 18% do PIB americano. Em 2025, esta proporção saltou para algo entre 65% e 70%. O crescimento médio da economia dos EUA foi de 2,1% ao ano durante este período, enquanto o da China foi de 7,5%.

Gráfico 6 - PIB por Paridade de Poder de Compra (PPC): o PIB PPC é utilizado para comparar a produtividade econômica (não o valor monetário em si, mas a maior produção de bens e serviços e consumo), e por este critério a China ultrapassou os EUA como maior economia global em 2014, e a distância entre ambos, que era de USD 2,7 trilhões em 2016, triplicou para USD 7,7 trilhões hoje.

Parte 3 - A Reação da Burguesia dos EUA

Mantidas as médias anuais de crescimento dos últimos 20 anos, a China ultrapassará os EUA também na métrica de PIB Nominal em torno de 2035. Ainda que este prazo seja postergado pela utilização das medidas coercitivas que estão ao alcance dos EUA, a tendência de superação pela economia chinesa permanece em um horizonte próximo.

Nesse contexto, a intensificação da violência econômica e militar é uma tentativa de preservar, pela força, uma hegemonia que não se sustenta mais pela capacidade produtiva dos EUA. A espoliação direta — controle de recursos naturais, imposição de sanções arbitrárias, confisco de ativos, coerção sobre rotas comerciais — surge como resposta à incapacidade crescente de reverter o declínio relativo de sua economia.

A agenda política de Trump deve ser compreendida a partir do conjunto de interesses da parcela da burguesia que ele representa, e não como representação de desejos e egos de um alucinado megalomaníaco. E justamente por este motivo é necessário ter clareza de que a “nova” ordem mundial que esteve vigente desde a queda da União Soviética, na qual os EUA, enquanto economia com maior capacidade produtiva precisava destruir as fronteiras dos Estados nacionais para que não apenas suas mercadorias, mas os seus capitais pudessem se espalhar, em alianças com as respectivas burguesias nacionais, que podiam ficar com nacos da riqueza expropriada, acabou.

Agora a pressão dos EUA é pelo retorno dos capitais não apenas de sua própria burguesia, mas também da burguesia de países aliados (não à toa os acordos comerciais estabelecidos por Trump exigem a obrigação de investimentos dos diferentes países em negócios nos EUA). O próprio Trump já afirmou que “perder a hegemonia do dólar seria o equivalente a perder uma guerra mundial. Seria um golpe para o nosso país como nunca vimos antes”. Em termos geopolíticos, a afirmação é verdadeira. E é justamente por isto que não se trata apenas de enfrentar Trump, mas sim a burguesia estadunidense que se beneficia desse sistema.

Não se pode, entretanto, analisar a ofensiva de Trump e da “Nova Direita” como um bloco monolítico da burguesia estadunidense. Existem ainda importantes fraturas profundas nas elites de poder, que de forma reducionista podem ser percebidas como a Facção Nacionalista-Industrial representada pelo complexo industrial-militar e setores de energia fóssil (incluindo automobilístico), que vê na China uma ameaça existencial que pode tomar parte significativa do seu mercado, e a Facção Globalista, composta por setores de Wall Street e empresas de semicondutores que ainda possuem cadeias de valor profundamente integradas à China e que dependem deste país para manter suas altas de lucratividade.

Essa contradição interna torna a política externa dos EUA mais errática e perigosa, em especial pela necessidade de Trump buscar a “unificação” dos setores da burguesia nacional (o que ele faz, por exemplo, ameaçando os países que tentam impor regras de maior responsabilização para as suas Big Techs).

Neste sentido, percebe-se o fim da ordem mundial baseada em regras e segurança jurídica, mais conhecida como “democracia liberal”, e toma corpo as expressões de domínio neoimperialista e militar em suas formas mais explícitas.

Mas apesar do grande domínio militar, que permite o sequestro de líderes e o cerceamento marítimo de países ser eficiente para sustentar vitórias imediatas, ao diminuir a importância relativa do seu “soft power” e aumentar o da expropriação violenta em suas formas mais explícitas, os EUA destroem as bases de sua própria legitimidade ideológica. Enquanto o fazem na Venezuela, podem usufruir do benefício de uma construção midiática de décadas, mas ao ameaçarem expandir esta forma de expropriação também para a Groenlândia, aumentam o nível de tensão com a burguesia internacional e abrem fraturas que podem se tornar difíceis de se remediar a curto prazo.

O genocídio cometido por Israel (com apoio dos EUA) em Gaza serviu também como forma de mensurar a reação do mundo à política estatal de racismo e assassinato, a despeito de manifestações internacionais de solidariedade da classe trabalhadora, que infelizmente não foram capazes de frear o genocídio. Para reconstrução de Gaza, por exemplo, foram indicados ao “““Conselho da Paz””” 3 bilionários que não possuem nenhuma experiência em conflitos geopolíticos, mas fortes ligações com conglomerados imobiliários (principal ramo de atuação de Trump).

Parte 4 - Os conflitos internos nos EUA

A política externa agressiva dos EUA não pode ser dissociada da crise social interna que atravessa a classe trabalhadora estadunidense. Décadas de desindustrialização, precarização do trabalho, estagnação salarial e destruição de direitos sociais produziram uma massa trabalhadora fragmentada, endividada e politicamente desorganizada. O crescimento econômico dos EUA nas últimas décadas beneficiou de forma esmagadora o capital financeiro e os setores de alta tecnologia, enquanto vastas regiões industriais foram transformadas em desertos econômicos.

Para os empregos precarizados, os EUA sempre se beneficiaram da imigração ilegal (documentários como Food Chains e The Harvest demonstram como havia certa conivência institucional com a entrada destes imigrantes e suas respectivas contratações). Em razão dos instrumentos de dominação ideológica (e que encontra respaldo no rebaixamento de sua situação relativa do ponto de vista econômico), a classe trabalhadora, nos momentos de crise, tende a responsabilizar os imigrantes ilegais por aceitarem trabalhar de forma extremamente precarizada, resultando em uma competição desleal pelo emprego em comparação com os trabalhadores nacionais.

A extrema-direita e o trumpismo emergem como respostas reacionárias a essa crise, canalizando o descontentamento social para o nacionalismo econômico, o militarismo e o ódio racial e cultural, ao mesmo tempo em que preserva intacta a estrutura da exploração capitalista. A promessa de reindustrialização, soberania produtiva e recuperação de empregos funciona como elemento de mobilização, e no caso dos EUA, não se deve descartar a possibilidade de que estas medidas criem alguns efeitos benéficos para parcelas mais precarizadas dos trabalhadores nacionais, com aumento do salário em razão da diminuição do exército industrial de reserva, e da criação de novos empregos em razão das taxas impostas aos produtos de outros países para atração/retorno de sua indústria.

A radicalização da política imperialista nas relações com demais países cumpre, assim, também uma função interna: buscar deslocar o conflito social, reorganizar o consenso interno em torno do inimigo comum (China como culpada pelos problemas sociais dos EUA) e legitimar políticas autoritárias, repressivas e militarizadas no interior do próprio território estadunidense, como as recentes ondas de repressão que culminaram no assassinato de Renee Nicole Good e Alex Pretti, que atuavam em defesa dos imigrantes.

Embora muitos considerem que as eleições de meio termo dos EUA possam estabelecer sistemas de freios aos EUA, entendo que serão um momento para a burguesia estadunidense ajustar a correlação de forças entre suas frações, mas que independentemente do resultado das urnas, a tendência é o fortalecimento de uma agenda bipartidária de militarização e radicalização das ferramentas de violência, uma vez que o contexto de sua economia e os arranjos políticos hegemônicos já não permitem instrumentos capazes de oferecer concessões materiais significativas à maioria da classe trabalhadora sem deslocar para fora e para baixo os custos da crise estrutural do capitalismo estadunidense.

Parte 5 - E como a China reage?

Em um curto período de 1 ano, dentre outras agressões, os EUA:

1) Ameaçaram invadir o Panamá se o controle do Canal do Panamá não diminuísse a participação chinesa e seu controle fosse cedido aos EUA. Temendo uma intervenção militar, o Panamá cedeu às exigências dos EUA.

2) Fizeram um bloqueio naval e estrangulamento econômico contra a Venezuela e sequestraram seu presidente. Em seguida, confiscaram petróleo, informaram proibição de entrega de petróleo à China, e que os recursos do petróleo venezuelano deveriam, em boa parte, ser utilizados para aquisição dos produtos dos EUA.

3) Ameaçaram tomar militarmente o controle da Groenlândia (ainda que em seguida tenham descartado a hipótese), sob o argumento de que precisam controlar as rotas do ártico por questões de segurança nacional, e anunciaram que serão aplicadas taxas aos países europeus que não colaborarem com a anexação da Groenlândia pelos EUA.

A China realizou investimentos extremamente vultosos na África e na América do Sul nas últimas décadas, de onde são provenientes boa parte das commodities importadas pela China e para onde parte importante da produção chinesa é exportada. Por este motivo a China buscou patrocinar uma rota logística chamada Nova Rota da Seda, que envolve a construção de enormes portos e extensas malhas ferroviárias de alta velocidade para consolidar um ecossistema de integração econômica entre os países destes continentes e a China que desafia fortemente a hegemonia dos EUA na região.

Como os EUA já demonstraram disposição inequívoca na utilização de força militar para defesa de sua hegemonia econômica, a China pode enfrentar desafios para mobilizar os países destes continentes para a implantação da Nova Rota da Seda (e/ou, posteriormente, problemas para a sua utilização), em razão do fundado receio de serem objeto de intervenção militar dos EUA. É importante notar que as ameaças dos EUA não geram efeitos apenas caso sejam concretizadas: ao afirmar publicamente que são capazes de atacar a soberania de países que fazem negócios expressivos com a China, ele ameaça os próprios países (e suas burguesias nacionais) da região para que não façam negociações com a China (sob pena de os Estados terem ameaçada a sua soberania, e as burguesias destes países perderem os investimentos realizados em conjunto com a China).

A curto prazo, minha aposta é que a China reagirá da seguinte forma: (i) imposição de barreiras tarifárias e limitação de exportação de produtos estratégicos (como as terras raras); (ii) oferta de pacotes de investimentos e aumento de importações de produtos provenientes de países que não restrinjam seu comércio (como o recente acordo celebrado com o Canadá indica); (iii) aprofundamento da relação militar com a Rússia. Infelizmente, não me parece o caso de, a curto prazo, esperar uma “guinada à esquerda” da China a nível da solidariedade de classe internacional (e aos seus partidos e sindicatos) - entendo que a China tende a buscar alianças com governos que mantenham e aprofundem as relações comerciais existentes com ela, e que é provável que para determinadas frações das burguesias dos países do Sul Global esta parceria com o capital chinês seja muito vantajosa e, por isto, será admitida sem dificuldades pela China.

A julgar pela composição da burguesia brasileira (e sua relação com o agronegócio) não duvido que esta possa aderir de forma mais enfática e entusiasmada no alinhamento com a China. E a grande questão é o quanto a China estaria disposta a “tolerar” uma insegurança política no continente caso a classe trabalhadora, em momento distinto de organização e mobilização, conseguisse de fato fazer a tomada do poder político.

É provável também que, a médio prazo, a China se veja pressionada a oferecer garantias de segurança e apoio logístico a governos de países do Sul Global (e não descarto que até mesmo governos europeus busquem alinhamento com a China para manutenção de soberania relativa), transformando disputas locais em potenciais zonas de conflito direto entre as potências. Entretanto, as evidências demonstram que a China tende a ser cautelosa com relação a expandir ações militares além do seu entorno imediato até atingir incontestável dianteira na economia e no campo militar.

Parte 6 - Os reflexos desta nova “Nova Ordem” no Brasil

No Brasil, a estratégia de ataque estadunidense é multifacetada e escalonável, e passa por etapas de utilização da institucionalidade (influência em vastos setores do executivo e legislativo), utilização do judiciário (lawfare, convênios com órgãos do governo, compartilhamento de espionagem)manipulação ideológica (e discursos como “liberdade de expressão” para manipulação de algoritmos em redes sociais que favorecem a extrema direita), sem contar o patrocínio de redes de desinformação.

O objetivo aqui é a subordinação via consentimento fabricado. Em outros tempos as lideranças políticas puderam capitalizar acordos importantes para a industrialização a partir da disputa entre dois impérios pela hegemonia, mas no cenário atual é inequívoco que os EUA querem manter/aumentar sua esfera de influência pela violência, e não pela barganha.

Devemos considerar que o Brasil não é apenas um gigantesco mercado consumidor, é também o 2º maior detentor de terras raras do mundo, possui reservas do Pré-sal (com potencial de novas descobertas relevantes na Margem Equatorial) e detém uma das maiores reservas de água potável e capacidade agrícola do planeta.

Caso as ferramentas da “democracia liberal” falhem em garantir alto grau de alinhamento com os interesses da burguesia estadunidense (ou se o Brasil buscar aprofundar as parcerias com a China e com os BRICS, desafiando o dólar como moeda global), a história recente da Venezuela mostra que mesmo este superficial, limitado e contraditório “respeito às regras” pode ser rapidamente descartado para intervenções mais diretas e explicitamente violentas.

O aumento no investimento em tecnologia de Defesa (como a aquisição de caças e a construção do submarino nuclear) se mostra de alguma forma necessário, embora absolutamente insuficiente para garantir qualquer soberania.

O que me parece é que, a médio prazo, a soberania do poder político no Brasil está intrinsecamente ligada com a possibilidade de estabelecer alianças econômicas e militares com a China. Entendo que, seja a China um país de “socialismo com características chinesas”, seja “capitalista com características chinesas”, por uma questão de sobrevivência a China terá de desenvolver mecanismos contra-hegemônicos em relação aos EUA que permitirão aos países aliados um certo grau de autonomia e é esta janela que permitirá organizar a radicalização de nossa luta.

Parte 7 - E a questão de nosso tempo continua sendo… a luta de classes

As recentes ações de violência dos EUA soam, para a maioria, como uma demonstração de força insuperávelPara olhares mais atentos, entretanto, na verdade demonstram a decadência das forças mais eficazes das quais dispunham para manter o controle, e se inicia uma contagem regressiva para que também sua força militar seja superada. Não é uma profecia para um tempo distante, é uma análise dos especialistas militares que desde sempre reconhecem que a superioridade econômica, a longo prazo, é necessária para a manutenção da superioridade militar.

O aumento do uso da violência explícita pelos EUA demonstra a fragilidade da continuidade da exploração pelas vias clássicas. Ainda assim o declínio relativo do domínio dos EUA não deve ser subestimado: um império em decadência, munido de um arsenal militar nuclear capaz de destruir o mundo (inúmeras desnecessárias vezes) torna-se ainda mais perigoso, pois a ameaça e a expropriação violenta passam a ser cada vez mais o principal caminho viável para frear a sua decadência.

Mas não é só a burguesia que se move. Nos EUA, centenas de manifestações aconteceram nos últimos 12 meses contra muitas das políticas de Trump. Milhões de pessoas foram às ruas em manifestações recentes contra operações de deportação em massa, assassinatos policiais e suas políticas econômicas.

Um problema central é sobre como estão os instrumentos de organização da classe para canalizar esta revolta popular em partidos e organizações que consigam dar consequência mais propositiva ao movimento e, principalmente, possam romper o binarismo “republicanos e democratas”, posto que estes últimos, apesar de menos explícitos com relação às disposições para a violência, não deixam de defender até às últimas consequências os interesses da sua própria burguesia.

Embora ainda existam remanescentes dos Pantera Negras, e partidos e organizações como DSA (Socialistas Democráticos), FRSO (organização comunista e que apoia governos anti-imperialistas) e o IWW (sindicato internacionalista que organiza importantes greves) estejam crescendo, o poder das Big Techs (via redes sociais) e a força do aparato de espionagem e repressão tornam esta batalha bastante desigual, embora as manifestações possam ter um papel relevante para diminuir a atuação belicista dos EUA no mundo.

No Brasil, um dos pontos sensíveis é que ainda que o aumento da expropriação ampliada pelos EUA gere maior empobrecimento, acarretando em levantamento das massas e crise entre setores da burguesia, e ainda que os partidos e organizações da esquerda estivessem com elevado nível de organização e inserção na classe (e estamos tão longe), um movimento revolucionário seria rapidamente sufocado pelos EUA e não poderia ser sustentado sem o apoio da China enquanto potência militar.

A situação da Venezuela (que comprou parte dos mais modernos equipamentos de defesa aérea disponíveis na China e Rússia) demonstra que a disparidade das forças militares (considerando nossa proximidade com os EUA e o predomínio de sua Marinha) ainda é impeditiva de rupturas a curto prazo, o que incita reflexões necessárias sobre as estratégias de luta e organização da classe para o próximo período.

Será necessário, por um lado, entender que o tempo histórico não permitirá à esquerda institucionalizada reformas significativas para melhorar a vida da população (as burguesias brasileiras serão “espremidas” e buscarão precarizar ainda mais a classe trabalhadora), sendo esperado o aumento dos conflitos sociais, com a Direita tentando cooptar a energia destes conflitos para consolidação de lideranças políticas que sejam melhor alinhadas aos seus interesses.

Há também o risco de que parcelas da classe aprofundem seu ressentimento com a Esquerda Institucionalizada em sua promessa de fazer uma boa administração do capitalismo, que seria capaz de melhorar a vida dos mais pobres de forma sustentada (promessa difícil de ser cumprida na atual conjuntura econômica mundial). O último representante da esquerda que representa no imaginário popular a possibilidade de alguma ascensão social e melhoria das condições de vida foi Lula, em razão do ciclo de crescimento econômico e das políticas sociais implementadas em seu primeiro e segundo mandato, e as condições objetivas da esquerda institucional não permitem o surgimento de outra liderança de peso a curto prazo. Ou seja, o crescimento da Direita no pós-bolsonarismo é, infelizmente, uma possibilidade para o próximo período.

O caminho de luta da esquerda revolucionária também parece especialmente difícil. No curto prazo, terá de apoiar a esquerda institucional nas disputas eleitorais para evitar que representantes das frações mais radicalizadas da burguesia (extrema direita) assumam o poder (e aprofundem o aparelhamento do Estado para intensificar os instrumentos de precarização e exploração da classe) sem perder a independência necessária para denunciar os limites dessa institucionalidade e construir os necessários instrumentos de luta (partidos e organizações) para a ruptura pretendida.

E só faremos isso, a meu ver, se conseguirmos conjugar uma estratégia que: (i) apesar de não ser centrada na questão eleitoral, entenda a importância de impedir que a extrema direita assuma o poder político e, neste sentido, estabeleça alianças táticas com a esquerda institucionalizada; (ii) seja capaz de dialogar com a população sobre a diferença das políticas da direita (denúncia e crítica destrutiva) e da esquerda institucionalizada (demonstrar os limites do alcance desta forma política e apontar o capitalismo como a raiz central das contradições a serem superadas); e (iii) coloque a luta de classes como eixo central articulador da luta contra as diferentes opressões e contra a deterioração das condições de vida do conjunto da classe através de um trabalho de base consequente, cotidiano, não sectário e que seja capaz de produzir a vanguarda necessária para que, nos próximos ciclos e janelas revolucionárias, possamos fazer a revolução. Podemos não ter muitas outras chances antes da barbárie total.