“A tática deve basear-se numa apreciação rigorosamente objetiva de todas as forças de classe do Estado em questão (e dos Estados que o rodeiam, assim como de todos os Estados à escala mundial), bem como da experiência dos movimentos revolucionários.” (Lenin).
Qualquer estratégia que ignore as correlações de força e as tensões estruturais está fadada ao voluntarismo ou ao fracasso. Por isso, o debate tático-estratégico de um campo político exige uma análise de conjuntura prévia. Essa análise deve capturar a dialética entre o possível e o necessário, revelando as dinâmicas econômicas subterrâneas e as contradições centrais que materializam a luta de classes em curso.
Por este motivo recomendo que antes da leitura deste esboço sejam considerados os elementos da análise de conjuntura escrita no final de janeiro de 2026, na qual proponho reflexões sobre eventos que estabeleceram novas condições para a disputa política no curto período. Esta avaliação está disponível neste link: Análise de Conjuntura - 01.2026, e a partir daquela pesquisa e da análise dos dados, proponho alguns pontos para reflexão e discussão coletiva.
1. Os dados econômicos indicam uma tendência — reconhecida por analistas de diferentes vertentes — de que a China avança para superar os EUA como maior economia global. Isso já ocorreu em termos de PIB por Paridade de Poder de Compra, mas ainda não ocorreu no PIB nominal.
2. Há frações expressivas da burguesia estadunidense que ganharam muito dinheiro com a exportação de bens e capitais para a China e que agora estão perdendo competitividade frente à indústria chinesa.
3. Os EUA ainda mantêm superioridade em determinados setores estratégicos de ponta (como biotecnologia, farmacêutica e IA), mas a China já ultrapassou os EUA em outros campos (como veículos elétricos, energias renováveis e robótica). A tendência geral é de que a China se torne líder global tecnológica em parte significativa dos setores industriais a curto e médio prazo.
4. Em termos de produtividade, a burguesia dos EUA dificilmente competirá, de forma sustentável, com grandes conglomerados chineses em vários segmentos industriais, e se mostrou disposta a ações ainda mais violentas para proteger/promover vantagens competitivas, seja por expropriação direta de riquezas naturais (como o petróleo da Venezuela), ameaças de intervenção militar para controle de rotas logísticas (ameaças militares ao Panamá e à Groenlândia) ou instrumentos econômicos de coerção (tarifas, embargos, chantagens e sanções).
5. A China não demonstrou capacidade e/ou disposição para dar suporte decisivo e imediato para manutenção de governos aliados contra as intervenções militares dos EUA, ainda que ofereça graus variados de apoio militar, político e econômico a estes aliados.
6. As ações recentes dos EUA são uma demonstração de força a curto prazo (especialmente sobre seu poderio militar e econômico), mas também sinalizam o próprio declínio dos seus instrumentos de dominação ideológicos (existem altos índices de rejeição internacional a estas ações), políticos (incapacidade de aglutinar de forma orgânica e coesa a burguesia internacional, com muitas manifestações contrárias ao governo Trump) e também econômicos (a queda relativa de produtividade faz com que o livre comércio não seja mais um desejo para boa parte de sua indústria).
7. Nos EUA a luta de classes se agudiza, mas a principal força antagonista ainda é representada pelo Partido Democrata, que apesar de um verniz mais progressista, demonstra também grande disposição pela violência (vide o genocídio em Gaza, patrocinado também por Biden, as inúmeras guerras e grampos promovidos por Obama, perseguição a ativistas como Snowden e Assange etc). É plausível que os democratas ganhem as próximas eleições, com certa suavização de forma e discurso, mas sem alteração substantiva das políticas intervencionistas pela defesa violenta de seus interesses. Não haverá libertação de Maduro, não ocorrerá o fim do embargo à Cuba, e continuarão as operações políticas, econômicas e militares, com novas justificativas ideológicas.
8. Para o Brasil, a estratégia prioritária dos EUA parece ser a de subordinação via consentimento fabricado, com o uso de ferramentas ideológicas e institucionais para manutenção dos seus interesses, mas não se pode descartar, diante da dimensão do país, suas riquezas naturais e posição estratégica na América Latina, que as intervenções do império se tornem ainda mais robustas, explícitas e violentas caso movimentos anti-imperialistas ganhem maior tração.
9. A soberania brasileira dependeria de forte desenvolvimento das suas forças produtivas e poderio militar para se proteger de intervenções externas. Não parece existir, no horizonte próximo, condições para que a soberania brasileira seja conquistada de forma absoluta, e ao mesmo tempo, sem a construção de resistência popular o esperado é que ocorra a piora da situação de vida da classe e deterioração das condições para construção dos acúmulos necessários a um projeto político revolucionário (na prática, avançariam projetos da extrema direita como instrumentalização do judiciário, escola sem partido, destruição acelerada de direitos sociais, dentre outros). É neste ambiente de contradições e limitações estruturais que teremos de formular táticas e estratégias para o próximo período.
Quando a Social-Democracia perde relevância, a revolução avança?
10. Cabe refletir se a responsabilidade pela falta de disposição da classe no Brasil para projetos de maior radicalidade (à esquerda) se explica: (i) pelo fato de que a atual direção da classe é Lula e o Partido dos Trabalhadores, que servem como um sistema de freios contra projetos mais radicais de transformação à esquerda (e, neste sentido, o papel da esquerda revolucionária deveria ser combater esta direção, na qual estaria a centralidade da responsabilidade por impedir o avanço de projetos revolucionários); ou (ii) por um conjunto de forças (ideológicas, econômicas e políticas) que extrapolam os limites do próprio petismo e são mais determinantes nas disposições de mobilização da nossa classe e, neste sentido, Lula e o petismo são aliados táticos relevantes para o enfrentamento dos desafios mais imediatos contra o crescimento da extrema direita, por mais que representem também limitações para o avanço de um projeto de ruptura.
11. No campo revolucionário, me parece predominar a primeira perspectiva acima descrita. Entretanto, o declínio da influência do PT na direção da classe (manifesta pela perda de direção em sindicatos, falta de capacidade de mobilização popular, ausência de protagonismo em movimentos sociais etc) não tem sido acompanhado de um crescimento e maior legitimação de concepções revolucionárias entre a classe trabalhadora. Em outras palavras: o PT “diminui”, mas não se tem notícia de grandes movimentos organizados pela esquerda revolucionária que tenham conseguido gerar saltos quantitativos e qualitativos ocupando o espaço desta perda relativa de relevância.
12. O fenômeno acima descrito é complexo e não tenho opinião absolutamente formada a respeito. Mas, analisando o contexto social, econômico e político do Brasil e demais países, não se verifica de forma geral que projetos socialistas estejam avançando significativamente junto à população. Podemos buscar explicações diversas sobre o tema (ausência de trabalho de base continuado, hegemonia da social democracia forçando rebaixamento de projetos) mas, ao meu ver, existem elementos mais determinantes que não se explicam pela falta de disposição revolucionária da social democracia e seus representantes internacionais.
13. Numa breve síntese:
(i) a perspectiva revolucionária (na concepção de superação da sociedade de classes) não está fortemente inserida na classe;
(ii) não há possibilidade de resolução definitiva das contradições deste sistema que não se dê pela derrota do capitalismo;
(iii) a social democracia (incluindo o PT) é mais a expressão da falta de perspectiva revolucionária do que a causa decisiva para esta situação; e
(iv) a social democracia é incapaz (para os “otimistas”) ou desinteressada (para os mais “críticos”) de organizar a luta política para superação do capitalismo mas, independente da perspectiva, me parece aliada tática indispensável para enfrentarmos o crescimento da extrema direita e encampar os necessários enfrentamentos anti imperialistas que se colocam como centrais para o próximo período.
14. Por que coloco a questão da luta anti imperialista como tão importante quanto a questão da luta de classes no horizonte imediato? Porque, como ficou demonstrado na Venezuela, mesmo com organização política coesa e com uma classe relativamente educada sobre o conflito de classes, um processo de transformação pode ser interrompido pela incapacidade de levar a disputa até às últimas consequências diante de estrangulamento econômico e coerção externa (militar, financeira e comercial) exercidos pelos EUA.
15. O quadro geopolítico acima delineado não é um pano de fundo abstrato para a prática educativa: ele determina, de forma concreta, as condições em que a classe trabalhadora brasileira vive, se organiza e que consciência política irá desenvolver. A disputa entre EUA e China redefine a divisão internacional do trabalho e pressiona a burguesia brasileira a aprofundar a superexploração como estratégia competitiva, enquanto a ameaça permanente de intervenção imperialista estreita o espaço de manobra de qualquer projeto nacional-popular de desenvolvimento. É nesse solo material — de precarização crescente, falta de soberania nacional e ofensiva ideológica conservadora — que os cursinhos populares operam, e é a partir desta realidade e do nosso horizonte estratégico que devemos formular nossas tarefas centrais.
Conclusões preliminares sobre o papel do movimento de educação popular.
Se o objetivo é contribuir para o fim de uma sociedade em que uma classe de alguns poucos explora outra classe de quase todos, entendo que é papel central dos cursinhos populares:
1. Estrutura de Classes: contribuir para que os estudantes compreendam que a origem dos problemas concretos, materiais e imediatos a que estão submetidos (vestibular, precariedade de empregos, moradia, falta de lazer) e outros temas ainda mais centrais que atingem parcelas significativas da classe (negros e mulheres, por exemplo) estão diretamente articulados com a forma em que esta sociedade organiza a produção e distribuição da riqueza (o capitalismo).
2. Lutas concretas diante das possibilidades imediatas e futuras: garantir que o objetivo definitivo (construção de uma sociedade sem classes) não apareça como propaganda de um porvir idílico, a ser alcançado por mera determinação moral e sacrifício de voluntários sob uma direção supostamente mais virtuosa. Este objetivo deve se manifestar como construção cotidiana, na qual lutas reformistas por demandas imediatas — inclusive as que dizem respeito às parcelas mais violentadas da classe (pessoas pretas, mulheres, LGBTQI+ etc.) — se articulam com a criação e fortalecimento de instrumentos de organização anticapitalista (partidos, frentes de cursinhos populares, movimentos sociais).
3. Avançar na compreensão sobre a aliança tática com a social-democracia e setores reformistas:
(i) compreender a insuficiência da social-democracia e de seus representantes para produzir uma sociedade sem classes; e
(ii) compreender, de forma concomitante, a necessidade de alianças táticas com a social-democracia para enfrentar projetos que ampliam exploração e violência contra a classe. A derrota da social-democracia para esses setores tende a piorar as condições de organização e luta (por exemplo, com iniciativas como “Escola Sem Partido”, ataques a cotas e permanência estudantil, privatizações e desmonte de universidades públicas), o que reverbera negativamente inclusive na possibilidade de alimentar a consciência de classe que emerge de um melhor ambiente para desenvolvimento das lutas sociais.
4. Reboquismo x Sectarismo: Há de se tomar cuidado para não incorrermos no reboquismo (com adesão incondicional pela agenda de conciliação de classe sugerida pelo PT que acomode os conflitos) e, ao mesmo tempo, não incorrermos em sectarismos (pensar que somos a direção virtuosa que consegue ver o que ninguém mais vê) ou idealismos diversos (defender como agenda imediata soluções que sabemos serem inviáveis na atual conjuntura).
5. Em síntese:
(i) os problemas do capitalismo não podem ser definitivamente resolvidos por reformas ou melhorias pontuais do sistema (que são possíveis em determinada conjuntura, mas facilmente reversíveis a longo prazo, como vimos com relação à própria situação da fome no Brasil);
(ii) consciência e organização revolucionárias não se constroem em abstrato, mas por meio de lutas concretas por melhoria de vida diante das condições imediatamente possíveis (reformas), combinadas com formulações teóricas capazes de oferecer compreensão crítica da estrutura social (com o materialismo dialético como pilar) e da necessidade de ruptura com o capitalismo (consciência revolucionária);
(iii) nem toda vitória reformista faz avançar consciência revolucionária — isso depende de inserção das frações revolucionárias nessas lutas, com análise de conjuntura, acúmulo teórico, trabalho nas demandas concretas e capacidade de articulação com movimentos em luta; e
(iv) não escolhemos as condições em que a disputa ocorre: não podemos nos abster dessas lutas por não serem “radicais o suficiente”, nem nos acomodar à miséria do possível a ponto de perder a tarefa de construir condições de radicalização.
6. Em termos de objetivos, a partir das reflexões acima, proponho como prioridades ao Cursinho para o próximo período:
(i) Manter os espaços formativos em economia política, com ênfase nos cursos do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio (Como Funciona a Sociedade I e II, Análise de Conjuntura, Comunicação e Expressão, Método e História das Revoluções e História do Movimento Operário), mantendo os esforços para ampliar o conjunto de participantes para além do Cursinho e envolvendo movimentos sociais com os quais dialogamos (sindicatos, coletivos de teatro, torcidas antifascistas, organizações políticas, universidades e outros), priorizando espaços organicamente conectados a lutas concretas;
(ii) Aprofundar uma consciência militante que seja, ao mesmo tempo, não sectária, capaz de dialogar com setores que estão inseridos no reformismo, e ao mesmo tempo entenda a necessidade de construir um horizonte de ruptura com a sociedade de classes;
(iii) Fomentar estudos e discussões sobre as formas de organização da classe que mais avançaram no período histórico recente (por exemplo, a organização de partidos e movimentos sociais na Venezuela, incluindo o peso dado ao processo eleitoral naquele país e a construção efetiva de poder popular de forma concomitante);
(iv) Aumentar a participação em instrumentos de organização coletiva de luta, colocando como uma das tarefas centrais a construção da Frente de Cursinhos Populares e da Jornada de Educação Popular, bem como mapear outras ações amplas a serem construídas com movimentos próximos;
(v) Considerar a relevância das disputas político-eleitorais e dos marcos institucionais da democracia burguesa que, embora não sejam suficientes para emancipação da classe, ainda funcionam como freios objetivos ao avanço de formas mais violentas de exploração conduzidas pela extrema direita; e
(vi) Incentivar que estudantes que concluam os ciclos formativos se integrem a alguma organização política, construindo formas de construção e integração mais próximas, de modo que a formação não seja apenas consumo de conteúdo e reafirmação abstrata de valores revolucionários, mas também incorporação em militâncias coletivas organizadas que, além de formação, articulem as lutas concretas do próximo período.